Vamos falar sobre morte súbita?


O PL 4667/2016, recentemente apresentado na Câmara dos Deputados , "determina que todos os estabelecimentos para prática de exercícios físicos possuam posto médico com materiais e profissionais habilitados para procedimento de Ressuscitação Cardiopulmonar e intervenções de urgências".

O autor justifica sua propositura afirmando que:

“A mídia retrata hoje, de forma corriqueira um grande número de vítimas de parada cardíaca em academias de ginástica, a Sociedade Brasileira de Cardiologia considera a realização imediata de ressuscitação cardiopulmonar (RCP) em uma vítima de parada cardiorrespiratória (PCR), ainda que apenas com compressões torácicas no pré-hospitalar, contribui sensivelmente para o aumento das taxas de sobrevivência das vítimas de parada cardíaca.”

A  justificativa do relator foi  a seguinte :

“Milhares de pessoas em todo o mundo vão a óbito em consequência de paradas cardíacas súbitas – PCS que poderiam ser evitadas por meio de seu reconhecimento rápido e da execução de manobras de ressuscitação cardiopulmonar iniciadas no menor intervalo de tempo possível por profissionais capacitados por meio de cursos de suporte básico à vida e de reanimação cardiopulmonar.”

“Essencial para salvar vidas é que haja, nessas empresas, profissionais capacitados para executar manobras primárias para reanimar vítimas de parada cardíaca ou respiratórias. Sendo assim, estamos de acordo com a obrigatoriedade, conforme estabelecido na iniciativa em comento, de que os estabelecimentos para a prática de exercícios físicos tenham, em seus quadros, profissionais com essas habilidades. Não se trata de ter que contratar um profissional para exercer essa função, mas de capacitar o profissional que já atua na empresa para poder desempenhar as manobras de ressuscitação.”

O PL em questão não especifica como deve ser o posto médico, nem quem deve ser o profissional habilitado (Médico? Profissional de Educação Física? Qualquer pessoa com treinamento de RCP?). Mas, de qualquer forma, é preciso esclarecer para a sociedade a realidade sobre as premissas que levaram à elaboração deste e de outros projetos de lei que envolvem médicos e atestados obrigatórios nas academias, respondendo com objetividade, científica e estatisticamente, às seguintes questões:

  • Qual seria a demanda adicional de médicos necessária para atender estas leis?
    Demanda de médicos para o Posto médico: Seriam necessários 99.471 médicos para atender à demanda desta lei (pelo menos 3 médicos em cada uma das 33.157 academias). Para a demanda específica  de evitar a morte súbita cardíaca, o ideal seria empregar cardiologistas. Dos 400 mil médicos brasileiros, apenas 13.420 são cardiologistas.

Para o atestado médico obrigatório: atendendo 10 pacientes por dia, 22 dias úteis por semana, 11 meses por ano, um médico produz 2420 atestados. Segundo dados da Vigitel (Ministério da Saúde), 37% da população brasileira pratica exercícios hoje.  Na população atual (206 milhões de habitantes/ IBGE) a obrigatoriedade de atestados geraria uma demanda de 31.495 médicos só para atender os 76 milhões de praticantes de exercícios.

  • Existem médicos no Brasil em número suficiente para atender a esta demanda?

Não. Basta conferir a demora e a dificuldade que temos (nós e todos os nossos clientes) para agendar uma consulta médica em qualquer especialidade.
Segundo dados do CREMESP, no Brasil de hoje há 2,1 médicos por mil habitantes. São 400 mil médicos. A média mundial é  de 3,2 médicos por mil habitantes. A distribuição dos médicos pelos Estados é muito desigual. Estados como Alagoas e Sergipe têm apenas 1 médico para cada 10 mil habitantes. 
Para chegar à média mundial, o Brasil deveria ter mais 207 mil médicos. Gerar uma demanda de posto médico em academias (93.000 méicos)  e/ou de atestados médicos para atender pessoas saudáveis que desejam fazer exercícios em qualquer lugar (31.495 médicos para 76 milhões de habitantes, 37% da população que é ativa fisicamente hoje) agravaria ainda mais a crise de saúde pública em todo o país.

  • Qual seria o custo de um posto médico para as academias? É viável? É razoável?

Não faz sentido criar um posto médico sem médicos de plantão para emergências. A Lei nº 3.999, de 15 de dezembro de 1961 estabelece que qualquer profissional de Medicina deve ganhar pelo menos três salários mínimos por uma jornada de trabalho de  20 horas semanais. Exemplo:
Salário Mínimo RJ =  R$953,47
Médico:  R$953,47x3 =  R$2859,00  para 20 horas semanais
Academia que funciona 96 horas semanais = precisa de 5 médicos.
5 x R$2859,00 = R$14295,00 sem encargos.
Aproximadamente =  R$26445,00 com encargos (85%).
Este custo inviabilizaria a grande maioria das academias do Brasil. Não é viável nem razoável empregar um número grande de pessoas que não têm a ver com o serviço oferecido.

  • Qual é a estatística real de morte súbita no Brasil? Onde ela ocorre?

Um grupo de cardiologistas da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto estudou autópsias de mortes súbitas ocorridas durante 5 anos na cidade. A estatística relatada para todas as mortes súbitas é de 30 pessoas a cada 100.000 habitantes. Entretanto, estas mortes têm uma incidência incrivelmente pequena durante a prática de atividades físicas: em apenas 0,7% das mortes súbitas as pessoas estavam se exercitando, o correspondente a 2,1 pessoas a cada 100.000.
O mais interessante é o detalhamento do local as mortes ocorreram. Mais da metade dos óbitos ocorreu no domicílio (53,3%). Em seguida, os óbitos ocorreram em salas de emergência (37,8%), para onde a grande maioria dos pacientes foi levada em parada cardiorrespiratória, denominada “morte na chegada”. Ressalte-se ainda que 8,2% dos eventos ocorreram em locais públicos e que seis homens foram a óbito (0,7%) durante prática de atividade física (média de idade de 35 anos).
Onde estavam  então todas aquelas pessoas que tiveram parada cardíaca súbita em Ribeirão Preto? 99,3% delas não estavam nas academias, nem praticando exercícios.

  • Qual é a estatística real de morte súbita relacionada à atividade física?

Segundo o documento “ Morte súbita no Exercício e no Esporte”, que compõe as diretrizes da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte, ”a real incidência da MSEE é desconhecida”. Citando o artigo de Perez et al., o documento explicita que “a MSEE é estimada em jovens abaixo de 30-35 anos em 1/133.000 homens/ano e 1/769.000 mulheres/ano. Recente estudo realizado na região de Veneto (Itália) mostrou uma incidência de 2,3 MS por 100.000 atletas por ano provocada por todas as causas e 2,1 MS por 100.000 atletas por ano por doença cardiovascular(5)”.
A afirmação a seguir, do mesmo documento, é ainda mais contundente: “De acordo com inúmeros estudos, pode-se considerar que para indivíduos saudáveis que se exercitam, seja em nível competitivo ou não e independente da intensidade, o risco de MSEE é muito baixo quando analisado do ponto de vista estatístico”. E para que não restem dúvidas: “Em adendo, indivíduos que praticam exercício regularmente apresentam um menor risco de MSEE do que indivíduos sedentários, visto que o exercício regular promove uma estimulação parassimpática promovendo uma estabilidade elétrica, ao contrário do exercício vigoroso ocasional que estimula o sistema nervoso parassimpático e promove uma instabilidade elétrica predispondo a arritmias cardíacas graves e/ou ruptura de uma placa aterosclerótica vulnerável.”

  • Por que  apenas os profissionais dos estabelecimentos de atividades físicas deveriam fazer cursos de Ressuscitação Cardiopulmonar? Existe alguma estatística que mostre que a morte súbita na academia acontece em função do mau atendimento de emergência ou má qualificação do profissional de Educação Física?

Não existe estatística nenhuma a este respeito. 
Os profissionais de Educação Física são profissionais da área da saúde assim como os médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas e outros.
Cada vida é preciosa, e é exatamente para salvar vidas que a disciplina de Socorros e Urgência faz parte da grade curricular das faculdades de Educação Física. O profissional de Educação Física é tão qualificado quanto os outros profissionais da saúde para realizar manobras e procedimentos de emergência.
O autor, o relator e a SBC estão corretos em afirmar que as manobras de RCP nos primeiros minutos das ocorrências cardíacas são importantes! Mas os profissionais de Educação Física, como os demais profissionais da área da saúde, já recebem tal treinamento em sua formação de nível superior, e, portanto, não precisam receber a capacitação novamente. Por consequência, as academias já têm profissionais habilitados em RCP em seus quadros, então não é necessário estabelecer uma nova lei com este objetivo.

  • Aonde as pessoas se exercitam?

Segundo a pesquisa do Diesporte, realizada pelo Ministério do Esporte, 57% da população brasileira se exercita em espaços abertos sem instalações. Apenas 12% das pessoas fisicamente ativas frequentam academias e 21,5% outras instalações.
Limitar a necessidade do treinamento de RCP às academias ou estabelecimentos de atividade física seria direcionar a abrangência dos procedimentos de emergência a  apenas  uma pequena minoria de praticantes de atividade física, exatamente aqueles que já estão devidamente supervisionados por profissionais da saúde.
8% das mortes súbitas ocorrem em locais públicos, que estão desconsiderados neste PL e são frequentados por 57% dos praticantes.

  • O exercício físico aumenta ou diminui o risco de morte súbita?

O sedentarismo leva a doenças crônicas responsáveis por 74.000 de cada 100.000 óbitos do Brasil: obesidade, diabetes, hipertensão, câncer (dados Ministério da Saúde/ Vigitel).
Enquanto isso, a estatística de morte súbita diz que  2,1 pessoas a cada 100.000 morrem durante a prática de exercícios.
Ficar sentado no sofá é infinitamente mais perigoso do que praticar atividades físicas.

  • Quais são as conclusões que podemos tirar destas estatísticas?
  • Não há correlação estatística entre morte súbita e a prática de atividade física que justifique o posto médico nas academias. 99,3% das mortes súbitas não ocorrem durante a atividade física.
  • Não há estatística de mortes súbitas em academias relacionadas ao mau atendimento do profissional de EF nas emergências.
  • Os profissionais de Educação Física já são capacitados e habilitados para procedimentos de RCP.
  • A maioria das pessoas não se exercita nas academias, e sim em locais públicos.
  • O Brasil não tem médicos suficientes para atender a demanda que seria gerada pelo posto médico, muito menos para a demanda de atestados médicos pré-participação. Deslocar médicos dos hospitais e clínicas para as academias agravaria mais o problema da saúde no Brasil.
  • O sedentarismo mata muito, muito mais do que a falta de médicos e de atestados médicos!

 

Nós, profissionais e empresários das academias, combatemos o sedentarismo todos os dias e podemos ajudar a combater ainda mais! Precisamos de soluções baseadas na maior conscientização de todos para a vida saudável e não na criação de novas obrigações e leis, que geram uma burocracia sem fim e acabam se sornando ineficazes e difíceis de seguir.
Contamos com a ajuda de toda a sociedade para eliminar cada vez mais barreiras e criar mais incentivos para a prática de atividades físicas!

 

Fontes :
Ministério da Saúde / Vigitel
http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2017/maio/12/Lancamento-resultados-2016.pdf
Ministério do Esporte/ Diesporte
http://www.esporte.gov.br/diesporte/2.html
CREMESP / Demografia Médica
http://www.cremesp.org.br/library/modulos/demografia_medica_2015/parte_01.pdf
Estudo USP Ribeirão Preto
http://www.scielo.br/pdf/abc/2014nahead/pt_0066-782X-abc-20140178.pdf
Diretrizes da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte / Morte Súbita no Exercício e no Esporte
http://www.medicinadoesporte.org.br/wp-content/uploads/2014/10/diretriz_mortesubita_2005.pdf



 
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